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Archive for fevereiro \22\UTC 2011

Protegido: Minha amada companheira…

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Acorda-se em uma bela manhã, talvez ínicio de tarde, na verdade não importa. Não haviam homens do outro lado da porta para o deter, ninguém havia morrido, não havia se transformado em um inseto diferente. Mas mesmo assim TM se sentia diferente. Sentia que o curso de sua vida, que não havia sido fácil, mas esteve muito longe de tantas dificuldades, havia se alterado, ou devia se alterar.

Já havia se sentido desta forma? Talvez de forma parecida, mas não desta forma em especial, sentia-se como se algo estivesse se desenrolando, sentia que tudo tanto fazia, mas que no final faziam tanto. Olhou para os lados e percebeu seu quarto, a cama onde estava deitado, seus móveis, seu computador, tv, videogame. Não havia notado diversas perninhas se contorcendo sem lógica ou razão, muito menos o café da manhã trazido por alguém ou mesmo um telegrama com notícias não tão boas, tudo permanecia igual, mas ao mesmo tempo diferente.

Sabia, sentia que algo acumulava ao longo do tempo, algo que lhe preenchia o peito de uma paixão que não lhe era comum, mas que ao mesmo tempo era algo indiferente. A vida, para TM, tanto fazia, mas percebia que ela o fazia tanto. Queria se expressar, mas longe de lhe faltar palavras, faltavam-lhe os ouvidos, mais do que estes que o escutariam, faltava aqueles que o compreenderiam. Nem tudo o que é dito, veredicto, é compreendido.

Talvez faltasse algumas palavras, não, não palavras, mas formas de falar. Formas que possibilitariam que aqueles que não o compreendiam o compreendesse, afinal, tudo o que é dito é dito por uma razão, mesmo que dito irracionalmente. Talvez TM estivesse com falta da própria falta, não lhe faltava outra coisa.

Faltar o faltar, mas como lhe falta a falta, se o pensamento a preenche? Talvez o preenchimento, as outras partes do cubo fosse o real problema, mas qual problema? Em sua visão não haviam problemas, haviam soluções, na verdade talvez não soluções, mas possibilidades evidenciadas pela locução e articulação do preenchimento que lhe vinha a mente a cada nova questão e a cada novo problema. Mas estavam todos preenchidos, todos cheios. Articulações rangiam sob o movimento, talvez pelo desgaste, talvez pelo mau uso, daquele que possui ou daquele que recebia? Não se sabia. A locução faltava o interlocutor, o locutor estava cansado. Talvez pelo excesso de ruído, talvez pela má recepção, talvez pela loucução que lhe era costumaz.

Tm acordará esta manhã com sentimentos diferentes, mas sentia sempre o mesmo. Lembrava-se de Mersault e de como não pôde se defender, mesmo sendo defendido. Lembrou de Joseph K. acusado sem saber a acusação. Lembrou-se do julgamento, tudo o mais era julgado, o crime? Pouco importava. Lembrou-se do processo, tudo nele corria e transcorria, apenas não corria aquele que deveria correr, mas adiantaria uma maratona em meio a um véu que cobre tudo? Lembrou-se das setenças, iguais, as mesmas, executadas de forma diferente, mas executadas, executados.

Um sem saber seu crime, sem poder se defender das instituições que ali imperavam. Diante da lei, a porta é feita apenas para você e só você poderia entrar, agora fecho essa porta e me vou. Outro sabendo seu crime, e sendo julgado por ser quem era, não pelo que cometerá. Diante da lei, a porta é feita apenas para você, mas diante do juíz o juri é feito para os advogados. Um não consegue saber o que ocorre em seu processo, o outro acompanha, como um estrangeiro, tudo que se passa sob seus olhos, sobre sua vida, sem poder intervir e quando o faz: O sol estava forte!

Não havia um sol forte naquela manhã, mas TM se sentia assim. Um híbrido de Mersault e Joseph K. Processado sem saber a razão, julgado por ser diferente, condenado por permanecer quem é.

A condenação ainda não sabia qual era, apesar de não sair de seu quarto, todo o processo, o julgamento e a setença foram dadas por trás dos panos, por debaixo do véu, em câmaras escuras e solitárias, onde as percepções valem mais que os fatos. Mas que fatos? Cada fato possui diversas perspectivas, e assim esperava ter sido julgado desta forma, talvez não pelo que entendia dos fatos, mas pelo que entediam sobre eles. Mas no fundo sabia que o processo transcorrerá dentro da ignorância dos fatos, consumados ou não, que o julgamento tinha se dado sem possibilidade de ampla defesa e do contraditório – os juízes possuiam suas próprias leis, que se aplicam a todos mesmo todos sendo diferentes, sendo tão iguais – a sentença dada de uma forma aleatória, sem embasamento ou conhecimento profundo das causas e da causa. Porém, tudo havia sido decidido, TM não havia participado, mas gostaria de participar?

Já não cansará de tanto falar e fazer e os ruídos e ídolos caídos não o atrapalharam? Bradar e retumbar um eco poderoso fazia efeito sendo apenas ele na porta da caverna? Ou estaria em seu interior? Não, as chamas da fogueira e as imagens na parede seriam boas interlocutoras, retornariam o som de sua voz em um eterno ressoar de certeza e verdade. Talvez estivesse cansado. Mas de tanto descansar?

TM sabia que não adiantava mais uma defesa, mas não aceitaria qualquer julgamento inapropriado sem advertir, mesmo diante da lei, que a verdade possui diversas faces, e que mesmo este rosto putrefato ainda tem algo a contar. Sabia que não seria ouvido, ouvido talvez, pois isto não faltavam aos corpos, mas compreendido não. Assim, disse o que lhe era possível dizer, de forma enigmática e vazia, pois tudo o mais estava preenchido, cheio.

Os juízes, em suas togas pretas, decidiram o destino de TM, porém, por uma ironia quase literária, era o judiciário que iria perder. A justiça apenas funciona quando existe aquele que necessita dela. Não existe justiça onde não existe o injusto. A sentença. a condenação serviria para isso: tornar justo o injusto e acabar com a injustiça que tanto incomodava os juízes. Mas quais seriam suas funções agora? Bater eternamente seus martelos em suas mesas, esperando a mais nova petição ou a mais nova interpelação? Quem iriam interpelar? Não haveria mais aquele que estaria pelado.

Talvez a condenação de TM não fosse perder a vida, como seus companheiros – Mersault (por ser diferente) e Joseph K (por não saber a razão) – foram condenados. Talvez a condenação de TM fosse muito pior, ele estaria condenado a liberdade. A eterna liberdade de falar, se expressar, dizer o que gostaria de dizer, de pensar da forma que lhe apetecesse, porém, a liberdade também estaria assegurada aos outros. A liberdade de falar talvez não encontrasse a liberdade de ouvir.

Sua voz ao vento, suas palavras sobre o mar, seu pensamento acima do céu. Sua razão sem recepção. Locução sem interlocutor: pelo menos desta vez não deveria se preocupar com o ruído.

Que me escutem, ou não. Tanto faz. Nada mais importa para mim – diria TM ao saborear a verdadeira liberdade que os juízes lhe concederam em sua condenação, e condenados estariam a não mais escutar aquele ruído incessante, irritante, mas que talvez estivessem tão acostumados.

A razão saia de cena.

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