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Archive for setembro \06\UTC 2010

Eu poderia escrever páginas e páginas de como não pode haver um Deus que permita o sofrimento, principalmente daqueles que do sofrimento não podem se defender, poderia discutir teoricamente, filosoficamente e praticamente sobre como o sofrimento é a negação da vida, uma vez que a vida existe para ser vivida em sua plenitude, e o sofrimento tiraria a plenitude da vida. Poderia demonstrar toda a raiva que sinto por não ter controle sobre as coisas, por ver certas coisas e não me conformar, por não compreender tais coisas como algo natural, apesar de natural ser, não me parece o rumo que as coisas deveriam seguir.

Não deveria nem escrever, não gosto de demonstrações públicas de sentimentos, mas quero escrever…

Acho que apesar de tudo, apesar de todos os momentos ruins, de todo sofrimento que eu, ou outros, possam ter causado, apesar dos sofrimentos que a vida possui -infelizmente inerentes – creio que ele foi feliz. Espero que ele tenha sido, eu sei que fui… mesmo ele nem sempre estando ao meu lado, ou me deixando ficar perto, fugindo as vezes de mim, não querendo ficar no meu quarto – apesar que era nele que procurava a segurança quando algo o fazia sentir medo – mesmo apesar de tudo isso, chegar em casa e o ver sorrir, e ficar alegre, mesmo as vezes sem ter a atenção que deveria, pegar seus brinquedos ou coisas do tipo e praticamente desfilar mostrando para todos, com algo que poderiamos dizer que era orgulho, enfim, tudo aquilo que viamos, que nos deixava alegres, contentes, que nos fazia rir, com certeza eram demonstrações de alguma espécie de felicidade.

Dez anos se passaram, de um filhote até um cachorror adulto e, nos últimos tempos, um idoso. Dez anos de convivência que nos fizeram muito felizes, e como disse, tenho certeza que o fizemos muito feliz.

Eu odeio emoções, elas são o contrário da “razão”, e eu, como uma pessoa racional, quando emotivo não consigo fazer nada, não consigo pensar, não consigo falar, não consigo escrever…

Ter a morte como a única certeza da vida, a ter como algo anunciado, e neste caso, praticamente previsto, não facilita em nada. A dor é a mesma.

Eu me afasto, não sei se como forma de negação ou outra coisa, me torno e me sinto distante, como, talvez, uma forma de me preparar, mas isso também não facilita. Talvez torne até mais díficil.

Apesar de termos consciência da inevitabilidade, e neste caso, até da necessidade, isso continua a doer.

Mas eu acho incrível como as coisas acontecem, existe prova maior de amizade do que retirar um dos maiores pesos dos ombros de seus amigos?

“Thiago, ele está indo”, foi o que escutei ao esperar os papéis de autorização. E ele se foi… sem a necessidade de uma medida externa, sem a necessidade da efetivação de uma escolha necessária.

“Faça-me o bem de deixar que a minha vida de dedicação e fidelidade possa se extinguir suavemente e eu o farei sentir, com meu último alento, que sempre me senti seguro em suas mãos.”

Não posso deixar de entender isso, essa partida natural, como uma última prova de amor.

O amor que demos foi o mesmo amor que recebemos…

Fiz um último pedido, um favor, pedi para ele morder a bunda de Deus, talvez assim, se ele existir, ele acorde…

Uma última sonata ao luar…

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